Foi assim que em
Jerusalém teve início esta festa em honra da Cruz que hoje a Igreja
continua a celebrar. A festa da exaltação da Santa Cruz nos vem ensinar a
manter sempre juntas as duas faces de uma única medalha: a cruz e a
páscoa, a cruz do Ressuscitado com todas as suas chagas, e a
ressurreição do Crucificado com toda a sua luz. No Novo Testamento a ressurreição de Cristo é chamada também de Exaltação ou Glorificação. O
Cristo crucificado é exaltado; através da sua morte ele retorna a
manifestar o esplendor da sua glória divina. Parafraseando Kant: “A cruz
sem a ressurreição é cega; a ressurreição sem a cruz é vazia”. A
liturgia da Palavra deste dia nos convida a considerar nosso Deus
crucificado, a fim de nos deixarmos envolver numa resposta de amor. É
que Cruz, Jesus Cristo e cristianismo são inseparáveis. Somos cristãos
porque Deus nos ama. “Nós não somos cristãos porque amamos a Deus. Somos
cristãos porque cremos que Deus nos ama” (Xardel). A salvação é que Ele
me ama, não que eu o ame. É este o coração do cristianismo, a síntese.
“Onde está a tua síntese lá está também o teu coração” (E. G. 143). Se
erradamente pensamos que o amor, a glória, a onipotência de Deus se
revelaram, sobretudo, quando Jesus fazia milagres, ficamos admirados ao
vermos no Evangelho que o momento mais alto da revelação da glória de
Deus ocorreu quando o seu Filho foi levantado na cruz. É neste momento
que o Pai nos consegue dizer, de um modelo claro, quanto realmente nos
ama. Desde crianças, aprendemos a rezar: Pelo sinal da santa Cruz... e
assim compreendemos que a Igreja siga a tradição de abrir e fechar todas
as portas da oração litúrgica com a chave da Cruz. Olhar para a Cruz.
“Toda a nossa glória está na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”! É para a
Cruz, árvore da Vida, que hoje se dirige o nosso olhar. Porque é,
também, do alto da Cruz que o Senhor, glorificado, nos olha. E, nesta
troca de olhares, está a salvação do Homem e do Mundo. No trecho do
livro dos Números ouvimos que o Senhor manda que Moisés levante sobre um
poste (haste) uma serpente de bronze, e quando alguém era mordido por
uma serpente venenosa, se olhasse para a serpente de bronze ficaria
curado. A serpente de bronze levantada no meio do acampamento é uma
imagem de Jesus crucificado. Todos nós precisamos olhar para o crucifixo
com um olhar orante, que nos permita aproximar-nos cada vez mais do
mistério da Cruz. Devemos reconhecer, contemplando Jesus crucificado, o
monumento de Amor que temos ante os nossos olhos. Não podemos ignorar o
infinito Amor com que Deus Pai entrega o seu Filho muito amado para a
nossa salvação. Esse Amor é acolhido no coração do Filho encarnado, que
com um ato de Amor infinito ao Pai e a nós, obedece até a morte e
morte de cruz (cfr. 2ª Leitura) Quanto nos ajuda olhar para a Cruz. E
olhamos quando iniciamos na Santa Missa, quando, meditamos a Paixão,
quando rezamos os mistérios dolorosos no rosário, quando fazemos a Via
Sacra, quando olhamos ou beijamos o crucifixo, etc. Olhemos, portanto,
para a Cruz a fim de compreendermos o valor redentor de nossos
sofrimentos, em primeiro lugar para nós próprios. os nossos sofrimentos
oferecidos a Deus, e unidos ao sacrifício redentor de Cristo, nos curam
do veneno das serpentes (as tentações que chegam de fora) e das
rebeldias interiores que nos afastam de Deus e fragilizam para combater
os inimigos de fora. Olhar para a Cruz nos ajuda a crescer na paciência,
na fortaleza, na humildade e no amor. Abraçar a Cruz. Amar não é uma
emoção, comporta dar, generosamente, ilogicamente, loucamente,
apaixonadamente. E Deus não pode dar nada menos que a si mesmo. “Deus
amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigênito...”. Entre Deus e o
mundo, que parecem tão distantes, estranhos, o ponto de conjunção é o
amor. Se nos tornamos contempladores assíduos do mistério da Cruz,
consideraremos que no Calvário encontraremos três cruzes. A cruz do mau
ladrão que se revolta e blasfema, a cruz do bom ladrão que aceita o seu
castigo como a pena merecida pelos seus crimes e se resigna, e a cruz de
Nosso Senhor que a abraça com amor. Nesse abraço nos abraça a cada um
de nós para nos salvar. Também nós abraçaremos a cruz, se nos tornarmos
conscientes de que os nossos sofrimentos são permitidos por Deus porque
Ele nos ama e nos quer unir a Si próprio, à sua obra redentora. Cada dia
que amanhecer é portador da sua cruz; é um novo encontro com Jesus que
nos convida a abraçar a cruz como Simão o cirineu e caminhar com Ele. A
cruz de cada dia é o trabalho cansativo, a paciência com as pessoas com
feitio difícil, a luta para guardar os sentidos, o frio, o calor, as
doenças, o exercício da temperança, a boa disposição quando estamos
cansados ou preocupados, o esforço para sermos fiéis aos tempos de
oração, etc. Existe uma breve e simples oração que nos facilita abraçar a
Cruz, identificados com Jesus. Perante qualquer sofrimento digamos com
fé “Senhor, aceito, agradeço e ofereço”. Nossa Senhora, como boa Mãe,
nos conduza pela mão, até junto da Cruz do seu Filho, como fez com São
João e as santas mulheres.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Festa da Santa Cruz – Vianópolis, 14/09/14 | Dom Washington Cruz, CP
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