terça-feira, 16 de setembro de 2014

Festa da Santa Cruz – Vianópolis, 14/09/14 | Dom Washington Cruz, CP



Celebramos hoje a festa da Exaltação da Santa Cruz. Estranho título para uma festa. Celebrada num tempo que vive outras exaltações, de outras glórias e exultações. Surgirá, por isso, e talvez, ao nosso espírito, esta pergunta: Por que é que nós, cristãos celebramos um instrumento de tortura, um símbolo de sofrimento, de derrota e de fracasso? A devoção à Santa Cruz. “Para saber quem seja Deus devo ajoelhar-me aos pés da cruz”. Estas não são palavras de um simples devoto, mas do maior teólogo do século passado, Karl Rahner. Segundo a tradição, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, encontrou a verdadeira Cruz no dia 14 de Setembro do ano 335 da era cristã. Neste dia, foi exposto solenemente à veneração do povo fiel o madeiro da Cruz.
Foi assim que em Jerusalém teve início esta festa em honra da Cruz que hoje a Igreja continua a celebrar. A festa da exaltação da Santa Cruz nos vem ensinar a manter sempre juntas as duas faces de uma única medalha: a cruz e a páscoa, a cruz do Ressuscitado com todas as suas chagas, e a ressurreição do Crucificado com toda a sua luz. No Novo Testamento a ressurreição de Cristo é chamada também de Exaltação ou Glorificação. O Cristo crucificado é exaltado; através da sua morte ele retorna a manifestar o esplendor da sua glória divina. Parafraseando Kant: “A cruz sem a ressurreição é cega; a ressurreição sem a cruz é vazia”. A liturgia da Palavra deste dia nos convida a considerar nosso Deus crucificado, a fim de nos deixarmos envolver numa resposta de amor. É que Cruz, Jesus Cristo e cristianismo são inseparáveis. Somos cristãos porque Deus nos ama. “Nós não somos cristãos porque amamos a Deus. Somos cristãos porque cremos que Deus nos ama” (Xardel). A salvação é que Ele me ama, não que eu o ame. É este o coração do cristianismo, a síntese. “Onde está a tua síntese lá está também o teu coração” (E. G. 143). Se erradamente pensamos que o amor, a glória, a onipotência de Deus se revelaram, sobretudo, quando Jesus fazia milagres, ficamos admirados ao vermos no Evangelho que o momento mais alto da revelação da glória de Deus ocorreu quando o seu Filho foi levantado na cruz. É neste momento que o Pai nos consegue dizer, de um modelo claro, quanto realmente nos ama. Desde crianças, aprendemos a rezar: Pelo sinal da santa Cruz... e assim compreendemos que a Igreja siga a tradição de abrir e fechar todas as portas da oração litúrgica com a chave da Cruz. Olhar para a Cruz. “Toda a nossa glória está na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”! É para a Cruz, árvore da Vida, que hoje se dirige o nosso olhar. Porque é, também, do alto da Cruz que o Senhor, glorificado, nos olha. E, nesta troca de olhares, está a salvação do Homem e do Mundo. No trecho do livro dos Números ouvimos que o Senhor manda que Moisés levante sobre um poste (haste) uma serpente de bronze, e quando alguém era mordido por uma serpente venenosa, se olhasse para a serpente de bronze ficaria curado. A serpente de bronze levantada no meio do acampamento é uma imagem de Jesus crucificado. Todos nós precisamos olhar para o crucifixo com um olhar orante, que nos permita aproximar-nos cada vez mais do mistério da Cruz. Devemos reconhecer, contemplando Jesus crucificado, o monumento de Amor que temos ante os nossos olhos. Não podemos ignorar o infinito Amor com que Deus Pai entrega o seu Filho muito amado para a nossa salvação. Esse Amor é acolhido no coração do Filho encarnado, que com um ato de Amor infinito ao Pai e a nós, obedece até a morte e morte de cruz (cfr. 2ª Leitura) Quanto nos ajuda olhar para a Cruz. E olhamos quando iniciamos na Santa Missa, quando, meditamos a Paixão, quando rezamos os mistérios dolorosos no rosário, quando fazemos a Via Sacra, quando olhamos ou beijamos o crucifixo, etc. Olhemos, portanto, para a Cruz a fim de compreendermos o valor redentor de nossos sofrimentos, em primeiro lugar para nós próprios. os nossos sofrimentos oferecidos a Deus, e unidos ao sacrifício redentor de Cristo, nos curam do veneno das serpentes (as tentações que chegam de fora) e das rebeldias interiores que nos afastam de Deus e fragilizam para combater os inimigos de fora. Olhar para a Cruz nos ajuda a crescer na paciência, na fortaleza, na humildade e no amor. Abraçar a Cruz. Amar não é uma emoção, comporta dar, generosamente, ilogicamente, loucamente, apaixonadamente. E Deus não pode dar nada menos que a si mesmo. “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigênito...”. Entre Deus e o mundo, que parecem tão distantes, estranhos, o ponto de conjunção é o amor. Se nos tornamos contempladores assíduos do mistério da Cruz, consideraremos que no Calvário encontraremos três cruzes. A cruz do mau ladrão que se revolta e blasfema, a cruz do bom ladrão que aceita o seu castigo como a pena merecida pelos seus crimes e se resigna, e a cruz de Nosso Senhor que a abraça com amor. Nesse abraço nos abraça a cada um de nós para nos salvar. Também nós abraçaremos a cruz, se nos tornarmos conscientes de que os nossos sofrimentos são permitidos por Deus porque Ele nos ama e nos quer unir a Si próprio, à sua obra redentora. Cada dia que amanhecer é portador da sua cruz; é um novo encontro com Jesus que nos convida a abraçar a cruz como Simão o cirineu e caminhar com Ele. A cruz de cada dia é o trabalho cansativo, a paciência com as pessoas com feitio difícil, a luta para guardar os sentidos, o frio, o calor, as doenças, o exercício da temperança, a boa disposição quando estamos cansados ou preocupados, o esforço para sermos fiéis aos tempos de oração, etc. Existe uma breve e simples oração que nos facilita abraçar a Cruz, identificados com Jesus. Perante qualquer sofrimento digamos com fé “Senhor, aceito, agradeço e ofereço”. Nossa Senhora, como boa Mãe, nos conduza pela mão, até junto da Cruz do seu Filho, como fez com São João e as santas mulheres.

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